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Sociedade crítica ou abaixo da crítica?

23 de Setembro de 2016

Um dos efeitos mais trágicos da revolução industrial, para nossa sociedade, foi o gradual afastamento, e consequente alienação, entre o consumidor e o objeto consumido.

Quanto mais elaborados e complexos estes objetos são, mais distante está sua lógica daqueles que o consomem. Um moedor de café manual, mecânico fazia um sentido corporal, físico e mental para quem o utilizava como, da mesma forma, sentido completo fazia a utilização de um arado.

Estes objetos estavam completamente apreendidos por seus usuários. Eles compreendiam sua mecânica, sua força aplicada, um eventual conserto de suas peças, de suas engrenagens e alavancas.

Na medida em que a eletrônica invadiu a produção, os objetos, grande parte dos consumidores foram afastados da lógica de funcionamento das coisas, ficando assim reduzidos ao seu resultado ou benefício viciante e sedutor. O consumo cria então uma espécie de encantamento, de mágica fazendo com que os primeiros usuários procurem atrás da TV a pessoa que aparece em sua tela.

Este encantamento, com a revolução tecnológica digital, se aprofunda, o distanciamento entre consumidor e objeto consumido se potencializa no conceito do plug and play.

Hoje, ao encantamento soma-se uma dependência viciante, sem que a grande maioria dos usuários tenham a mais remota ideia de como as imagens se compartilham, como estou falando em áudio e vídeo com o outro lado do planeta, como as redes sociais reconhecem meu perfil, hábitos, comportamentos e deslocamentos por um mapa virtual construído por nosso telefone.

Passamos grande parte dos nossos dias compartilhando, baixando, registrando, comentando, apenas digitando e tocando em teclas virtuais, sem saber exatamente como tudo isso funciona.

É claro que não precisamos todos saber profundamente sobre algoritmos, sobre ondas via satélite, sobre redundância, sobre nanotecnologia, ou mesmo como responde um touch screen para utilizarmos nossos aparelhos mágicos, como da mesma forma, não sabiam nossos ancestrais sobre combustão, quando acenderam o primeiro fogo.

Mas a minha pergunta é: se desde o homem do Cro-Magnon desenvolvemos nosso cérebro através de tarefas conjugadas entre nossos sentidos e os objetos que manipulamos, por que nos afastamos tanto da natureza que nos cerca e nos serve, mesmo sendo esta natureza virtual e tecnológica?

Se estamos apenas nos servindo de “coisas” que nos satisfazem, como dependentes de um opiáceo que nos alivia as dores do dia a dia, entramos em uma armadilha da qual não teremos capacidade intelectual e emocional para sair.

O respeito dado por um homem ao pano que tecia e que posteriormente se transformaria em sua roupa, advinha exatamente da capacidade de valorar o seu trabalho e o tempo destinado ao ofício. Esse sempre foi o respeito pelo esforço de transformação da matéria em conforto, seja material ou espiritual.

Por outro lado, se não conseguimos fazer uma leitura crítica, nem mesmo sobre as ferramentas que utilizamos em nosso cotidiano, como poderemos ter uma postura crítica sobre nossa ética, sobre as relações sociais, de poder, ou mesmo espirituais?

As opiniões e comentários “críticos” que vemos hoje nas redes sociais, feitos por grande maioria dos internautas, me parecem fruto desse descompromisso com as coisas e as pessoas.

Poderíamos chamar de uma verdadeira coisificação daquilo que eu não respeito, daquele que desconheço. Com relação aos objetos não respeito porque são indecifráveis e descartáveis, com relação aos outros não respeito porque são insignificantes e diferentes (não sou eu). Resultando daí como consequência prática os estupros, as fobias e os preconceitos.

Esse estado esquizofrênico individual está nos levando a uma morbidez coletiva onde o senso crítico, que sempre nos fez caminhar, está sendo reduzido a um senso destrutivo e paralisante.

~ Onor Filomeno ~