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Filias... Vícios e manias

24 de Outubro de 2016

"Cinemania” é um documentário de 2002 sobre cinéfilos de Nova Iorque. Mas não sobre cinéfilos no sentido clássico, mas sim cinéfilos que transcendem a própria definição de cinefilia. Isto porque o documentário aborda pessoas totalmente viciadas em cinema (como se de uma droga dura se tratasse), que não fazem mais nada na vida senão ver 3, 4 ou 5 filmes por dia. Se possível todos os dias do ano. São pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo cujo objecto de dependência psicológica é o cinema. Estes cinéfilos extremistas não trabalham, não têm relações sociais, quase não comem para ver cinema, conhecem de cor fichas técnicas e artísticas de filmes, colecionam infinidade de material cinematográfico e são frequentadores obsessivos das salas de cinema mais obscuras de Nova Iorque (recusam ver filmes em casa).
Das várias pessoas retratadas neste peculiar documentário, Jack Angstreich é o caso mais radical e extremo: diz que não tem outra preocupação na vida que não seja o cinema, vê tudo o que lhe aparece à frente em sessões contínuas sem parar e, na pior fase (ou melhor) da sua vida, viu 1000 filmes em apenas… oito meses! Esta compulsão patológica acarreta consequências nefastas, porque nos momentos de privação de visionamento de filmes (como quando Jack se encontra doente) o sofrimento psicológico vem ao de cima. Mas Jack recusa tratamento psiquiátrico e considera o seu gosto por cinema “normal”. Que prazer retirará Jack da sua compulsão pelo visionamento de filmes? A resposta é um enigma.
E nós, quão longe estamos nós disso...; mesmo se variamos as nossas predileções e as nossas obsessões (não restringindo a uma só, como neste caso), será que a nossa cultura permite que sejamos algo além de patologias ambulantes extraindo nada — ou quase nada — da vida, numa eterna fuga da alma, no ponto em que ela se retrai de si mesma?
O que é que possibilita a tensão entre o homem e a cultura de seu tempo, quando esta se torna opaca e festiva? O que é que faz do homem algo anárquico à pura materialidade e angústia do homem?